(14/09/26)
A tal pesquisa de clima organizacional sempre foi vendida como o momento sagrado em que a empresa finalmente ouviria seus funcionários. Uma espécie de confessionário moderno, só que sem perdão e com muita planilha. Todo mundo já percebeu que esse ritual corporativo não passa de um teatro caro, onde a plateia finge que acredita e os atores fingem que atuam. E o mais curioso é que nós, espectadores obrigatórios, ainda somos convidados a participar da peça, como se nossa opinião tivesse algum poder mágico de transformar o ambiente. No fundo, sabemos que não muda nada, mas seguimos lá, preenchendo tudo como bons cidadãos do mundo empresarial.
O anonimato, por exemplo, é aquela promessa que já chega com cheiro de piada pronta. Dizem que ninguém será identificado, mas pedem tempo de casa, setor, nível hierárquico, turno, equipe, gestor direto e, se bobear, até o nome do cachorro. A empresa jura que não dá para saber quem é quem. Claro. Porque numa equipe de cinco pessoas, só um está há três anos, trabalha no turno da tarde e vive reclamando do ar-condicionado. Totalmente impossível de identificar. É quase fofo ver o esforço para manter a fantasia.
E a gente cai nessa. Ou melhor, participa por pura sobrevivência. Porque não responder é pior. A empresa manda lembrete, depois manda lembrete do lembrete, depois o gestor chama para “conversar”. A pesquisa vira quase uma prova de fidelidade. Você não está apenas avaliando a empresa; está sendo avaliado por avaliá-la. É um jogo estranho, onde todo mundo sabe que está jogando, mas ninguém admite.
O mais engraçado, engraçado naquele sentido trágico que dá vontade de rir para não chorar, é que os resultados nunca mudam nada. Nunca. É como jogar uma garrafa ao mar sabendo que ela vai ser recolhida pela própria empresa e reciclada em mais uma apresentação de PowerPoint. Eles mostram gráficos coloridos, falam em “pontos de melhoria”, prometem “planos de ação”, mas no fim tudo continua igual. A cadeira continua desconfortável, o gestor continua sumido, o clima continua pesado e o café continua ruim. A única coisa que muda é o slide.
E aí vem a parte mais paradoxal: a gente reclama, ironiza, faz piada, mas quando chega a pesquisa seguinte… lá estamos nós de novo. Preenchendo. Comentando. Escrevendo textão na esperança de que, dessa vez, alguém leia. É quase um relacionamento tóxico com a própria empresa. A gente sabe que não vai dar em nada, mas insiste. Talvez porque, no fundo, todo mundo queira ser ouvido, nem que seja por um algoritmo que vai transformar nossa indignação em porcentagens.
O ambiente corporativo tem dessas ironias. Ele cria rituais para parecer humano, mas funciona como máquina. E nós, humanos, tentamos sobreviver dentro da engrenagem com algum humor, porque sem humor ninguém aguenta. A pesquisa de satisfação é o retrato perfeito disso: um gesto simbólico que tenta mascarar o fato de que a empresa não quer realmente saber o que pensamos. Quer apenas dizer que perguntou.
E o mais curioso é que, mesmo sabendo disso, a gente se sente meio culpado quando marca uma nota baixa. Como se estivesse traindo alguém. Como se a empresa fosse uma pessoa sensível, capaz de ficar magoada. É quase comovente essa nossa capacidade de humanizar instituições que não sabem nem que existimos. A empresa não sente nada, mas nós sentimos por ela. E seguimos tentando agradar, como se isso fosse melhorar nossa vida.
No fim, a pesquisa serve para manter a ilusão de diálogo. Uma ilusão confortável, porque dá a sensação de que estamos participando de algo maior, mesmo que esse algo maior não esteja nem aí para nós. É o teatro corporativo em sua forma mais pura: todos atuam, ninguém acredita, mas a peça continua em cartaz porque ninguém sabe o que fazer fora dela.
E talvez seja isso que mais incomoda. Não a pesquisa em si, mas o fato de que aceitamos esse jogo como se fosse natural. Como se fosse normal preencher um formulário que não muda nada, mas que mesmo assim nos prende a uma esperança vaga de que, um dia, alguém vai ler e pensar: “talvez devêssemos fazer diferente”. Até lá, seguimos rindo, reclamando, preenchendo e fingindo que acreditamos. Porque, no fundo, é isso que mantém o espetáculo funcionando.
Cláudio Sampaio (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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