(28/09/26)
O problema das tais gestões colaborativas é simples: elas colaboram mesmo é para o caos. E digo isso sem rodeios, porque quando você coloca meia dúzia de gerentes para avaliar um time que não conhecem, o resultado é aquele velho samba desafinado que todo mundo finge que está ouvindo pela primeira vez. Procurei não intervir nos outros times, mas na área que eu gerenciava, a engenharia, onde cada detalhe importa, virei espectador de um espetáculo onde gente que nunca entrou para conhecer, decidia quem era bom, quem era ruim e quem deveria ser promovido. E o mais curioso é que todo mundo achava isso normal, como se fosse natural escolher o melhor mecânico da cidade perguntando para o padeiro da esquina.
A tal gestão colaborativa virou moda no RH. E moda, você sabe, é aquela coisa que aparece bonita na vitrine, mas quando você veste percebe que pinica, aperta e não combina com nada. Eles juravam que era moderno, inovador, disruptivo. Eu chamava de bagunça organizada. Porque enquanto eu tentava manter meu time alinhado, vinha gerente de outra área, que mal sabia diferenciar um relatório técnico de um pedido de compra, e bem avaliava quem sorria mais e não considerava quem não puxava conversa no corredor. Era quase um concurso de simpatia corporativa.
E claro, isso afetava tudo. Promoções? Viraram loteria. Ganhava quem tinha mais fãs fora da área. Desligamentos? Aconteciam com gente boa, dedicada, que só tinha o defeito de não bajular ninguém. E contratações então? Eu via candidatos tecnicamente excelentes sendo descartados porque não tinham aquele brilho nos olhos que alguns gerentes adoram confundir com competência. Enquanto isso, os que sabiam se vender, mas não sabiam entregar, eram aprovados com louvor. A empresa parecia acreditar que carisma substitui conhecimento técnico. Spoiler: não substitui.
O mais engraçado, ou trágico, é que o resultado do setor não entrava na equação. Alguns podiam entregar tudo no prazo, com qualidade, com custo controlado, mas isso não tinha peso nenhum. Era como fazer suco de laranja com abacaxi e ainda ouvir que faltou maracujá. A matemática do RH não fecha, mas eles insistem em dizer que é ciência. E a gente, para não parecer antiquado, finge que acredita.
O ambiente corporativo adora essas invenções. Parece que existe uma necessidade quase emocional de criar processos que complicam o que já funciona. É como se a empresa tivesse medo de admitir que o básico resolve. E aí surgem essas ideias brilhantes que misturam colaboração com competição, empatia com julgamento, inovação com improviso. No final, ninguém sabe exatamente o que está fazendo, mas todo mundo tem opinião sobre o trabalho do outro.
E claro, existe aquela hipocrisia deliciosa que só grandes corporações conseguem cultivar. Todo mundo fala de meritocracia, mas o mérito mesmo é saber circular pelos corredores certos. Todo mundo fala de justiça, mas a justiça depende de quem está avaliando. Todo mundo fala de transparência, mas ninguém explica como alguém que não conhece o setor pode avaliar o setor. É um moralismo de fachada, cheio de discursos bonitos e práticas tortas. E a gente, querendo ou não, acaba participando desse teatro porque precisa sobreviver nele.
No fundo, o que mais incomoda é perceber como decisões importantes são tomadas com base em impressões superficiais. Como se o trabalho real, aquele que dá resultado, fosse detalhe. E isso corrói qualquer gestão. Você tenta manter o time motivado, mas como motivar alguém que sabe que será avaliado por quem não faz ideia do que ele faz? Como convencer um bom funcionário a ficar, se ele vê colegas menos competentes sendo promovidos por popularidade? É um humor ácido, quase cruel, porque a gente ri para não chorar.
E no meio disso tudo, seguimos. Fingindo que funciona. Fingindo que é moderno. Fingindo que é colaborativo. Porque no fim das contas, ninguém quer ser o chato que diz que a roupa nova do rei não existe. Mas alguém precisa dizer. Porque enquanto o RH inventa moda, quem paga a conta é o time, é a entrega, é o resultado. E é o gerente que tenta fazer milagre com um sistema que mais atrapalha do que ajuda.
Talvez um dia percebam que colaboração não é colocar todo mundo para opinar sobre tudo. É permitir que cada um faça bem o que sabe fazer. Até lá, seguimos nesse circo corporativo, tentando equilibrar competência, política e paciência. E torcendo para que, pelo menos, a próxima moda do RH não atrapalhe tanto.
Cláudio Sampaio (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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