(21/09/26)
Dentro da mochila de uma criança chamada Nina, acontecia um fenômeno que ninguém imaginava. Não era magia de varinha, nem feitiço de livro antigo. Era algo muito mais curioso: os objetos conversavam. Não sempre, claro. Só quando a mochila fechava, o zíper fazia aquele som de “zzzip” e o mundo lá fora ficava em silêncio. Aí sim, começava a verdadeira reunião do dia.
A caneta azul era a primeira a acordar. Ela sempre acordava antes dos outros, talvez porque vivia ansiosa para escrever alguma coisa, mesmo que fosse só um rabisco imaginário. Ela espreguiçava a tampa, que fazia um estalinho discreto, e dizia:
— Bom dia, pessoal, ou boa noite, ou boa tarde… alguém sabe que horas são?
Ninguém sabia. Dentro da mochila, o tempo tinha vontade própria.
O caderno, que era o mais paciente do grupo, respondia com sua voz de papel:
— Hora de começar mais um capítulo da nossa vida apertada aqui dentro.
Ele dizia isso sem reclamar, porque gostava mesmo era de guardar histórias, mesmo as que não eram escritas nele.
A tesoura, sempre animada, abria e fechava as lâminas como quem bate palmas.
— Vamos fazer algo hoje? Estou cheia de energia. Se quiserem, corto o tédio em pedacinhos.
A régua, que adorava uma piada, respondia:
— Só não vai cortar ninguém, por favor. Já basta o susto que você me deu ontem quando escorregou.
A borracha, tímida, dava uma risadinha. Ela era dessas que falava pouco, mas quando falava, todo mundo prestava atenção. O lápis, por sua vez, era o mais sonhador. Vivia imaginando desenhos que ainda não existiam. Às vezes, ficava tão distraído que esquecia de falar.
Naquele dia, porém, algo diferente aconteceu. A mochila balançou mais do que o normal, como se Nina estivesse correndo. Depois, parou de repente. O zíper se abriu só um pouquinho, deixando entrar um fio de luz. E então… silêncio. Um silêncio tão grande que até a caneta azul ficou quieta.
— Será que fomos esquecidos?
Perguntou a borracha, com a voz baixinha.
— Esquecidos não.
Disse o caderno.
— Acho que estamos esperando alguma coisa.
A régua, que gostava de medir tudo, até sentimentos, disse:
— Eu diria que estamos esperando algo grande. Ou médio. Talvez pequeno. Difícil saber.
A tesoura deu um salto.
— Seja o que for, estou pronta!
Mas nada aconteceu. O zíper fechou de novo, e a mochila ficou parada. Foi aí que o lápis, que raramente falava, disse:
— Acho que Nina está triste.
Todos se viraram para ele. O lápis não costumava fazer afirmações assim, tão certeiras.
— Por que você acha isso?
Perguntou o caderno.
— Porque hoje ela me segurou diferente. Não foi aquele segurar de escrever rápido. Foi um segurar demorado, como se estivesse procurando uma ideia que não vinha.
A borracha suspirou.
— Eu conheço esse tipo de dia. Às vezes, a gente tenta apagar uma coisa que incomoda, mas ela insiste em ficar.
A caneta azul, que sempre tinha uma opinião, disse:
— Talvez ela precise de nós.
— Mas ela sempre precisa de nós.
Respondeu a régua.
— Somos o time oficial das tarefas, dos desenhos, das invenções.
— Sim, mas hoje ela precisa de outra coisa. Não de trabalho. De companhia.
Disse o lápis.
A tesoura, que era prática, perguntou:
— E como vamos fazer isso se estamos presos aqui dentro?
O caderno abriu uma de suas páginas, como quem abre os braços.
— Podemos começar conversando. Às vezes, quando alguém está triste, o que ajuda é saber que não está sozinho. Mesmo que não ouça a conversa.
A caneta azul concordou.
— Vamos contar histórias para ela. Histórias que só nós conhecemos.
E assim começaram. A régua contou a vez em que Nina a usou para medir o tamanho do próprio pé, só para descobrir que tinha crescido meio centímetro. A tesoura lembrou do dia em que cortou papel colorido para fazer um arco-íris que ficou torto, mas que Nina adorou mesmo assim. A borracha contou como se sentiu importante quando apagou um erro que Nina achava impossível de consertar. O lápis falou dos desenhos que Nina fazia quando estava entediada, e de como cada traço parecia uma aventura.
O caderno, por fim, contou a história mais bonita: a de todas as páginas que ainda estavam em branco.
— Nina acha que páginas em branco são difíceis, mas eu acho que são cheias de possibilidades. E possibilidades são coisas que só aparecem quando a gente acredita nelas.
A mochila ficou mais leve. Não porque os objetos pesavam menos, mas porque a conversa parecia iluminar o espaço apertado. Era como se cada palavra abrisse uma janelinha invisível.
De repente, o zíper se abriu de novo. Nina colocou a mão lá dentro. Ela pegou o lápis. Depois, o caderno. Sentou-se no chão, respirou fundo e começou a desenhar. Não era um desenho perfeito. Nem precisava ser. Era um desenho de coisas que ela gostava: uma árvore torta, um sol sorridente, um gato que parecia um pão com bigodes.
E enquanto ela desenhava, os objetos dentro da mochila sentiram algo que não sabiam nomear, mas que parecia muito com alegria.
— Viu? Ela só precisava de um começo.
Disse o lápis.
A caneta azul sorriu.
— E de nós.
A régua completou:
— Cada um do seu jeito.
A tesoura fez um clique de satisfação. A borracha, emocionada, quase apagou a si mesma sem querer. O caderno fechou suas páginas devagar, como quem guarda um segredo precioso.
E assim, dentro daquela mochila comum, aconteceu algo extraordinário: seis objetos diferentes descobriram que, juntos, podiam ajudar alguém a encontrar um pouco de luz nos dias nublados.
E isso, para eles, era mais importante do que qualquer tarefa de casa.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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