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Sabeis

Baú de contos

A Assembleia dos Objetos Desajustados

(05/10/26)

A mochila de Nina estava especialmente cheia naquele dia. Não cheia de coisas, mas cheia de pensamentos. Sim, pensamentos. Porque, embora ninguém saiba disso, mochilas absorvem ideias do mesmo jeito que absorvem migalhas de lanche. E quando ficam tempo demais sem serem esvaziadas, começam a pensar sozinhas.

Naquela tarde, Nina a deixou no canto da sala, meio aberta, como quem esquece um segredo pela metade. E foi justamente essa abertura que permitiu que os objetos lá dentro resolvessem fazer algo ousado: uma assembleia.

A caneta azul foi a primeira a propor.

— Acho que precisamos conversar sobre um assunto sério.

Disse ela, tentando parecer importante, embora estivesse com a tampa meio torta.

A régua, que adorava uma formalidade, respondeu:

— Concordo. Uma assembleia precisa de ordem. E eu sou ótima em ordem.

A tesoura deu um salto.

— Assembleia? Adoro! Tem alguma coisa para cortar?

— Não.

Disse o caderno, abrindo uma página como quem abre espaço para o diálogo.

— É uma assembleia de ideias.

A borracha, que sempre chegava atrasada às conversas porque vivia apagando pensamentos antigos, perguntou:

— E sobre o que vamos falar?

O lápis, que estava quieto no fundo, murmurou:

— Sobre sermos diferentes.

Todos se viraram para ele. O lápis raramente falava, mas quando falava, parecia que o mundo ficava mais atento.

— Diferentes como?

Perguntou a tesoura.

— Diferentes de nós mesmos. E diferentes do que Nina espera às vezes.

Respondeu o lápis.

A caneta azul franziu o corpo.

— Eu não entendi.

O caderno explicou:

— Acho que o lápis quer dizer que cada um de nós tem um jeito próprio de existir. E que isso às vezes causa confusão.

A régua concordou.

— Por exemplo, eu sou reta. Muito reta. E às vezes sinto que isso incomoda a tesoura, que vive abrindo e fechando em curvas.

A tesoura abriu as lâminas, ofendida.

— Eu não me incomodo com você! Eu só… não sei ser reta.

A borracha suspirou.

— Eu também não sei ser reta. Nem curva. Eu só sei desaparecer um pedacinho de mim cada vez que ajudo.

A caneta azul disse:

— E eu só sei escrever. Mas às vezes escrevo demais. Ou escrevo torto. Ou escrevo quando ninguém pediu.

O lápis completou:

— E eu só sei desenhar. Mas às vezes desenho coisas que Nina não gosta.

O caderno fechou suas páginas devagar.

— E eu só sei guardar. Mas às vezes guardo coisas que Nina queria esquecer.

A mochila, ouvindo tudo de fora, sentiu um aperto no zíper. Era como se estivesse testemunhando uma conversa íntima demais, mas ao mesmo tempo necessária.

A régua, tentando organizar o caos, disse:

— Então estamos aqui para decidir quem é mais importante?

— Não!

Gritaram todos ao mesmo tempo.

A régua ficou sem palavras. Era raro isso acontecer.

O caderno explicou:

— Estamos aqui para entender por que cada um acha que precisa ser mais do que já é.

A borracha levantou a voz pela primeira vez.

— Eu sei por quê. Porque Nina às vezes fica triste quando algo dá errado. E a gente tenta ajudar. Mas cada um tenta do seu jeito. E às vezes parece que não é suficiente.

A tesoura balançou as lâminas devagar.

— Eu já tentei cortar um papel que Nina queria que ficasse perfeito. E ficou torto. Ela ficou chateada. Eu também.

A caneta azul disse:

— Eu já borrei uma prova inteira. Nina ficou desesperada. Eu me senti culpada.

O lápis falou baixinho:

— Eu já quebrei a ponta no meio de um desenho. Nina suspirou tão fundo que eu achei que ia voar para fora da mesa.

A régua confessou:

— Eu já escorreguei e fiz uma linha torta. Nina ficou frustrada. Eu também.

O caderno, com sua voz de papel, disse:

— E eu já tive páginas arrancadas. Não porque Nina não gostava de mim, mas porque ela precisava recomeçar.

A mochila, emocionada, decidiu falar.

— Vocês não percebem? Nina não precisa que vocês sejam perfeitos. Ela precisa que vocês sejam vocês.

Os objetos ficaram em silêncio. Um silêncio tão grande que dava para ouvir o eco das palavras da mochila.

A caneta azul perguntou:

— Mas e quando erramos?

A mochila respondeu:

— Errar faz parte. Vocês não são máquinas. São ferramentas cheias de personalidade. E Nina gosta disso.

A borracha sorriu.

— Então… eu sou importante mesmo apagando?

— Sim! Porque apagar é dar espaço para tentar de novo.

Disse a mochila.

A régua perguntou:

— E eu, mesmo sendo rígida?

— Sim. Porque você ajuda Nina a ver o mundo com clareza.

A tesoura perguntou:

— E eu, mesmo sendo afiada?

— Sim. Porque você transforma o que é grande em algo que cabe nas mãos.

A caneta azul perguntou:

— E eu, mesmo borrando às vezes?

— Sim. Porque você dá voz às ideias.

O lápis perguntou:

— E eu, mesmo quebrando?

— Sim. Porque você desenha possibilidades.

O caderno perguntou:

— E eu, mesmo guardando coisas que Nina não quer lembrar?

— Sim. Porque você também guarda as que ela nunca quer esquecer.

Os objetos se entreolharam. Era como se tivessem descoberto algo que sempre esteve ali, mas que ninguém tinha dito em voz alta.

A mochila concluiu:

— Vocês são diferentes. E é justamente isso que faz cada um ser necessário.

A assembleia terminou sem votação, sem discursos longos, sem decisões complicadas. Terminou com um sentimento simples: pertencimento.

E quando Nina voltou, pegou a mochila e saiu pulando pela casa, os objetos lá dentro balançaram juntos, como quem dança ao mesmo ritmo, mesmo sendo tão diferentes.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

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