(05/10/26)
A angústia moderna tem Wi-Fi. Ela vibra no bolso, pisca na tela, apita no ouvido. Acordamos com notificações, dormimos com alertas, e no meio disso fingimos que estamos “conectados”, quando, na verdade, estamos só exaustos. O mundo virou uma corrida sem linha de chegada, onde o prêmio é não ficar para trás. Tudo é urgente, tudo é agora, tudo é demais. E o cérebro, coitado, tenta acompanhar, tropeçando entre mensagens, vídeos, feeds e promessas de produtividade. A mente não descansa mais; virou um aplicativo rodando em segundo plano, consumindo bateria até apagar.
O drama começa cedo. O despertador toca e, antes do café, já estamos rolando o celular. Notícias, fofocas, tragédias, promoções, memes. Uma overdose de informação servida com açúcar e ansiedade. O dia mal começou e já estamos cansados. E o pior é que gostamos. Há um prazer estranho em se sentir ocupado, em fingir que o caos é sinal de importância. “Não tenho tempo pra nada”, dizemos com orgulho, como se fosse uma medalha. Mas é só confissão de dependência. O vício da pressa.
A tecnologia prometeu facilitar a vida, mas acabou complicando o espírito. Tudo ficou mais rápido, mas ninguém ficou mais tranquilo. A cada segundo, uma nova atualização, uma nova opinião, uma nova polêmica. O mundo virou um grande grupo de WhatsApp, onde todo mundo fala ao mesmo tempo e ninguém escuta ninguém. E quem tenta se desconectar é visto como alienado, preguiçoso, quase um traidor da modernidade. O silêncio virou suspeito.
Há algo de cruel nesse ritmo. A mente humana não foi feita para processar mil estímulos por minuto. E, mesmo assim, insistimos. Queremos saber de tudo, opinar sobre tudo, participar de tudo. Como se o valor da existência estivesse na quantidade de notificações recebidas. É uma espécie de ansiedade coletiva, um medo de ficar de fora. O famoso “não posso perder nada”. Mas, ironicamente, é justamente isso que estamos perdendo: o tempo, o foco, a paz.
O corpo sente. O sono é leve, a cabeça dói, o humor oscila. E o coração, esse velho romântico, tenta acompanhar o ritmo das máquinas. Mas não dá. Ele ainda bate no compasso humano, lento, imperfeito, cheio de pausas. Só que o mundo não tem paciência para pausas. Quer respostas instantâneas, emoções rápidas, decisões imediatas. A lentidão virou defeito. E quem desacelera é atropelado.
O mais curioso é que, no fundo, sabemos que isso está nos destruindo. Sabemos que o excesso de informação não é sabedoria, que o excesso de estímulo não é felicidade. Mas seguimos. Porque parar é encarar o vazio. E o vazio assusta. É mais fácil se distrair do que se entender. Mais fácil abrir o celular do que abrir a própria cabeça. A pressa virou anestesia.
Há uma ironia amarga nisso tudo. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, e nunca fomos tão confusos. Nunca tivemos tantos meios de comunicação, e nunca nos sentimos tão sozinhos. A tecnologia nos aproximou das telas e nos afastou das pessoas. E, no meio dessa avalanche de dados, esquecemos o básico: respirar, olhar, sentir. O mundo gira rápido demais, e nós giramos junto, tontos, sem saber onde vamos parar.
Talvez o futuro não precise de mais velocidade, mas de mais pausa. Talvez o verdadeiro avanço seja conseguir desligar. Fechar o celular, ignorar o e-mail, deixar o mundo lá fora por um instante. Não é fuga, é sobrevivência. Porque, se tudo continuar nesse ritmo, o próximo colapso não será tecnológico, será humano.
Roberto Luiz Cantareira (PGIA)
Redação Sabeis – Crônicas
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