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Sabeis

Baú de contos

O dia em que o céu aprendeu a ver

(14/09/26)

O céu azul amanheceu tão calmo que parecia estar segurando a respiração. Pilu acordou sentindo que aquele seria um dia diferente. Não diferente como quando o vento resolve brincar de empurrar nuvens para todos os lados, mas diferente por dentro, como quando a gente percebe que algo importante está prestes a acontecer.

Lira veio chegando devagar, sem seus giros animados de sempre. Ela parecia pensativa, como se tivesse passado a noite conversando com suas próprias dúvidas.

— Pilu…

Começou ela, com a voz baixinha.

— Você viu como algumas nuvens estão se afastando umas das outras?

Pilu tinha visto. Desde que Nimbo começara a espalhar suas suspeitas misteriosas, algumas nuvens pareciam desconfiar até da própria sombra. Era como se o céu tivesse ficado cheio de pequenos nós invisíveis.

— Vi, sim.

Respondeu Pilu.

— E acho que precisamos fazer alguma coisa.

Lira se aproximou mais, como quem busca coragem.

— Mas… o que a gente pode fazer? Nimbo fala com tanta certeza que até eu fico confusa às vezes.

Pilu sabia que Lira não era a única. Quando alguém falava com firmeza, mesmo sem mostrar nada que provasse aquilo, era fácil acreditar. Ou, pelo menos, duvidar de si mesmo.

— Vamos observar.

Disse Pilu.

— E vamos conversar com as outras nuvens. Às vezes, quando uma dúvida é dita em voz alta, ela perde a força.

Lira abriu um sorriso tímido.

— Eu gosto quando você fala assim. Parece que o céu fica mais leve.

As duas seguiram flutuando até encontrarem um grupo de nuvens menores, que cochichavam entre si. Quando viram Pilu e Lira, se afastaram um pouco, como se tivessem medo de serem acusadas de algo que nem sabiam o que era.

— Oi.

Disse Pilu, com sua voz suave.

— Está tudo bem?

As nuvens menores se entreolharam. Uma delas, bem redondinha, respondeu:

— Não sabemos. Nimbo disse que algumas nuvens estão falando mal dele. E… bem… não queremos problemas.

Lira deu um passo à frente.

— Mas ele não disse quem são essas nuvens.

Lembrou ela.

— Como vocês podem ter certeza de que são vocês?

A nuvem redondinha hesitou.

— Não sabemos. Mas ele falou com tanta firmeza…

Pilu se aproximou, deixando sua sombra macia tocar o grupo.

— Às vezes, alguém fala com firmeza para parecer mais certo do que está. Isso não significa que seja verdade.

As nuvens menores ficaram em silêncio. Era como se estivessem ouvindo algo que nunca tinham parado para pensar.

— Vocês viram alguém falando mal dele?

Perguntou Pilu.

Todas balançaram suas bordas em negação.

— Então por que acreditar?

Completou Lira, com um brilho novo nos contornos.

As nuvens menores se entreolharam novamente, mas dessa vez com menos medo e mais curiosidade.

— Talvez… talvez a gente tenha acreditado rápido demais.

Disse a nuvem redondinha.

Pilu sorriu. Era um começo.

Mas, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Nimbo surgiu no horizonte, inflado como um balão que tenta parecer majestoso. Ele veio flutuando devagar, como se estivesse fazendo uma entrada triunfal.

— Ah, que bom que estão todas reunidas!

Disse ele, com um tom que tentava soar sábio.

— Tenho novas informações.

Lira suspirou baixinho. Pilu manteve a calma.

— Que informações, Nimbo?

Perguntou ela.

Ele ergueu suas bordas, como quem prepara um discurso importante.

— Descobri que as nuvens que duvidam de mim estão tentando enganar vocês também. Elas querem que vocês pensem que eu estou inventando coisas. Mas eu sei a verdade. Sempre sei.

As nuvens menores começaram a se mexer, inquietas. A sombra que não vinha do sol parecia querer voltar.

Mas Pilu não deixou.

— Nimbo.

Disse ela, com firmeza tranquila.

— Você pode mostrar o que descobriu?

Ele piscou, surpreso.

— Mostrar? Como assim?

— Você disse que sabe quem são as nuvens que duvidam de você. Pode mostrar como descobriu isso?

Nimbo se encolheu um pouco, mas tentou disfarçar.

— Ah, Pilu… algumas coisas não precisam ser mostradas. Basta confiar em mim.

Lira deu um passo à frente.

— Mas você disse ontem que não queria causar confusão. E agora está dizendo que algumas nuvens estão enganando as outras. Isso não é confusão?

Nimbo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.

As nuvens menores começaram a olhar umas para as outras, como se estivessem acordando de um sonho estranho.

— Nimbo.

Continuou Pilu.

— Quando você fala coisas que deixam todo mundo inseguro, mas não mostra nada que prove o que diz, isso não ajuda o céu. Só deixa tudo mais pesado.

Ele se inflou, tentando recuperar o controle.

— Eu só quero proteger vocês!

— Proteger de quê?

Perguntou Lira.

— De algo que ninguém viu?

Nimbo hesitou. Pela primeira vez, parecia pequeno de verdade. Não pequeno de tamanho, mas pequeno por dentro, como se tivesse percebido que suas palavras tinham criado um céu cheio de sombras.

— Eu… eu só não queria que vocês me achassem…

Ele parou, procurando a palavra.

— Desimportante.

Pilu se aproximou dele, com gentileza.

— Nimbo, você não precisa inventar histórias para ser importante. Você já é parte do céu. E isso basta.

As nuvens menores concordaram, balançando suas bordas.

— A gente gosta de você.

Disse a nuvem redondinha.

— Mas fica difícil quando você fala coisas que deixam todo mundo desconfiado.

Nimbo murchou um pouco, como um balão que finalmente solta o ar preso.

— Eu… acho que exagerei.

Pilu sorriu.

— Todo mundo pode exagerar às vezes. O importante é perceber e mudar.

Lira se aproximou também.

— E da próxima vez, se você sentir alguma coisa estranha, pode conversar com a gente. Sem mistério, sem sombra.

Nimbo respirou fundo, como se estivesse deixando o céu entrar dentro dele.

— Eu vou tentar.

E, naquele momento, o céu pareceu soltar um suspiro coletivo. A sombra que não vinha do sol começou a desaparecer, dissolvendo-se como um pensamento que finalmente encontra clareza.

As nuvens voltaram a flutuar juntas, leves como deveriam ser. E Pilu percebeu que o céu tinha aprendido algo importante: que palavras podem iluminar ou escurecer, dependendo de como são usadas.

E que, quando alguém fala coisas que confundem, é sempre bom olhar com atenção, não para ter medo, mas para entender melhor.

Porque o céu é grande demais para viver cheio de dúvidas inventadas.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

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