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Sabeis

Crônicas

Educação de Berço e Outros Desastres Domésticos

(21/09/26)

A conversa anda torta quando o assunto é essa mania moderna de terceirizar tudo, inclusive aquilo que sempre foi íntimo, caseiro, quase sagrado: a educação dos filhos. Hoje, muitos pais parecem acreditar que escola é uma espécie de lava-rápido moral, onde a criança entra suja de mundo e sai brilhando em cidadania, respeito e boa convivência. Como se professores fossem mágicos capazes de ensinar matemática, português, ciências e, de quebra, transformar pequenos tiranos domésticos em cidadãos exemplares. É curioso, e trágico, ver como essa transferência de responsabilidade virou hábito, como se a formação básica não começasse mais no berço, mas na fila da secretaria escolar.

O drama aparece nas pequenas cenas do cotidiano. A mãe que reclama que o filho não respeita ninguém, mas passa o dia berrando com ele. O pai que exige disciplina, mas não sabe dizer “não” sem pedir desculpa. A família que se orgulha de “não bater”, mas vive distribuindo humilhações disfarçadas de piada. E depois, claro, sobra para a escola resolver. Professores viram bombeiros emocionais, psicólogos improvisados, árbitros de brigas que começaram em casa. E ainda precisam ensinar fração, fotossíntese e análise sintática. É quase uma comédia, se não fosse tão triste.

A verdade é que muita gente anda perdida. Não sabe como educar, não sabe como impor limites, não sabe como lidar com frustração, nem a própria, nem a dos filhos. E aí surge a solução mágica: delegar. A escola vira depósito de expectativas. “Ensinem meu filho a ser educado.” “Ensinem meu filho a ter responsabilidade.” “Ensinem meu filho a se comportar.” Como se tudo isso fosse conteúdo de apostila, com exercícios e gabarito. Só que não é. Nunca foi.

E o mais curioso é que, quando a escola tenta fazer esse papel extra, vem a reclamação. “Estão se metendo demais.” “Estão ensinando valores que não concordo.” “Estão querendo educar meu filho.” Ora, mas não era exatamente isso que pediram? Existe uma contradição deliciosa, e perigosa, nessa história. Pais que não querem educar, mas também não querem que outros eduquem. Querem filhos perfeitos, mas sem esforço. Querem respeito, mas não dão exemplo. Querem limites, mas não suportam a ideia de serem os responsáveis por colocá-los.

No fundo, há um medo enorme de assumir o próprio papel. Educar dá trabalho. Exige presença, paciência, firmeza, coerência. Exige olhar para si mesmo e perceber que, muitas vezes, o problema não está na criança, mas no adulto que a guia. E isso dói. É mais fácil culpar a escola, culpar a sociedade, culpar o celular, culpar qualquer coisa que não seja o espelho.

Enquanto isso, professores seguem tentando. Tentam ensinar convivência, tentam ensinar respeito, tentam ensinar autocontrole. Tentam, porque sabem que, sem isso, o resto não funciona. Mas também sabem que estão enxugando gelo. A escola pode reforçar valores, pode orientar, pode acolher. Mas não pode substituir o que deveria vir de casa. Não pode ser mãe, pai, avó, tio, padrasto, madrasta e ainda ser professora. Não dá.

E o resultado dessa confusão aparece nas salas de aula: crianças que não sabem lidar com frustração, adolescentes que não suportam regras, jovens que acreditam que tudo é negociável. E adultos que continuam achando que a culpa é da escola. É um ciclo que se retroalimenta, uma espécie de tragédia silenciosa que se desenrola todos os dias, sem plateia, sem aplausos, sem final feliz.

Talvez o caminho seja simples, embora ninguém goste de ouvir: educação começa em casa. Sempre começou. A escola é parceira, não substituta. E quando essa ordem se inverte, tudo desanda. Não é questão de nostalgia, nem de conservadorismo barato. É só lógica. Criança aprende primeiro com quem está perto. Aprende pelo exemplo, pelo olhar, pelo gesto. Aprende no café da manhã, na bronca bem dada, no limite claro, no carinho sem culpa.

Se os pais não assumirem isso, não há escola que dê conta. E aí, no fim das contas, quem paga o preço é a criança, que cresce sem saber quem deve ouvir, quem deve seguir, quem deve confiar. Cresce perdida, como muitos adultos já estão. E o país inteiro sente o impacto dessa bagunça doméstica.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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