(12/10/26)
A manhã tinha começado como qualquer outra na mochila de Nina: um balanço para lá, um chacoalhão para cá, e aquele cheiro de lanche que sempre aparecia mesmo quando não havia lanche nenhum. Os objetos já estavam acostumados com essa rotina meio acrobática. Mas naquele dia, algo diferente aconteceu.
Um barulho.
Não um barulho comum, como o clique da tesoura ou o riscar do lápis. Era um barulho misterioso, que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. Um tum-tum-tum abafado, como se alguém estivesse batendo na parede da mochila com um travesseiro.
A caneta azul foi a primeira a notar.
— Vocês ouviram isso?
Perguntou, tentando manter a calma, mas tremendo um pouquinho.
A régua respondeu:
— Ouvi. E medi mentalmente. O som tem aproximadamente… três centímetros de estranheza.
A tesoura abriu as lâminas, animada.
— Será que é aventura? Eu adoro aventuras! Desde que não envolvam cortar ninguém sem querer.
A borracha, que sempre imaginava o pior, disse:
— E se for um monstro? Um monstro que come objetos escolares? Eu já estou meio comida, então seria um prato fácil.
O lápis, que raramente falava, murmurou:
— Não parece monstro. Parece… coração.
Todos se viraram para ele.
— Coração?
Repetiu o caderno, abrindo uma página como quem abre uma janela para entender melhor.
— Sim. Um coração batendo rápido. Como o de Nina quando ela está nervosa.”
Disse o lápis.
A mochila, que até então estava quieta, decidiu falar.
— Eu também senti. O barulho veio de fora. Nina estava segurando vocês com força. O coração dela estava correndo.
A caneta azul perguntou:
— Mas por quê?
A mochila suspirou.
— Porque hoje é dia de apresentação na escola.
Os objetos se entreolharam. Eles sabiam o que isso significava. Nina ficava ansiosa quando precisava falar na frente da turma. Não era medo de errar. Era medo de não ser suficiente.
A régua disse:
— Precisamos ajudar.
A tesoura concordou.
— Sim! Mas como? Não posso cortar a ansiedade dela.
A borracha disse:
— Eu posso tentar apagar um pouco do medo, mas acho que não funciona assim.
A caneta azul falou:
— Eu posso escrever uma mensagem de coragem, mas ela teria que me usar para isso.
O lápis completou:
— Eu posso desenhar algo que acalme. Mas ela teria que querer desenhar.
O caderno fechou suas páginas devagar.
— Talvez não seja sobre fazer algo. Talvez seja sobre estar aqui.
A mochila, emocionada, disse:
— Sim. Às vezes, só o fato de vocês existirem já ajuda Nina a se sentir menos sozinha.
Mas o barulho continuava. Tum-tum-tum. Tum-tum-tum. Era como se o coração de Nina estivesse tentando conversar com eles.
A régua, que gostava de organizar pensamentos, disse:
— Vamos fazer uma reunião de emergência. Precisamos de um plano.
A tesoura levantou as lâminas.
— Plano número um: distração! Podemos fazer barulhos engraçados aqui dentro.
A borracha balançou a cabeça.
— Ela vai achar que a mochila está quebrada.
A caneta azul sugeriu:
— Plano número dois: inspiração! Podemos lembrar Nina das coisas boas que ela já fez.
O lápis disse:
— Eu gosto desse plano.
O caderno abriu uma página em branco.
— Vamos escrever aqui dentro, mesmo que ela não veja. Às vezes, escrever muda o ar ao redor.
E assim começaram.
A régua contou a vez em que Nina a usou para medir o tamanho do sorriso da amiga.
— Deu oito centímetros de alegria!
Disse ela, orgulhosa.
A tesoura lembrou do dia em que cortou papel para fazer estrelas que Nina colou no teto do quarto.
— Ela disse que queria dormir olhando para o céu.
A borracha contou como apagou um erro enorme que Nina achava impossível de consertar.
— Ela sorriu depois. Eu quase derreti de felicidade.
A caneta azul falou da carta que Nina escreveu para a professora, agradecendo por ter ajudado num dia difícil.
— Eu nunca escrevi tão bonito.
O lápis contou do desenho que Nina fez da família.
— Ela disse que era o desenho mais importante do mundo.
O caderno, por fim, disse:
— E eu guardo tudo isso. Cada página é uma prova de que Nina já fez coisas incríveis.
A mochila sentiu algo mudar. O barulho do coração de Nina ficou mais lento. Tum… tum… tum… como se estivesse ouvindo a conversa, mesmo sem ouvir.
De repente, Nina abriu o zíper. Pegou o caderno e o lápis. Sentou-se no banco da escola e começou a desenhar. Não era um desenho perfeito. Era um desenho dela mesma, sorrindo, segurando a mochila.
Os objetos lá dentro ficaram em silêncio, observando.
Depois de alguns minutos, Nina fechou o caderno, respirou fundo e sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro.
A mochila disse baixinho:
— Ela vai ficar bem.
A régua respondeu:
— Claro que vai. Ela tem a gente.
A tesoura fez um clique de alegria. A borracha quase apagou a si mesma de emoção. A caneta azul vibrou. O lápis ficou orgulhoso. O caderno fechou suas páginas com cuidado, como quem guarda um tesouro.
E assim, naquele dia, os objetos da mochila descobriram que, mesmo sem serem vistos, podiam ajudar Nina a encontrar coragem dentro dela mesma.
Porque às vezes, a maior força vem das pequenas coisas que nos acompanham em silêncio.
Keila Martins de Oliveira (PGIA)
Redação Sabeis – Baú de contos
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