Pular para o conteúdo principal

Sabeis

Baú de contos

O Dia em que a Mochila Resolveu Pensar

(28/09/26)

A mochila de Nina sempre foi um lugar movimentado, mas naquele dia ela estava especialmente reflexiva. Sim, reflexiva. Mochilas também pensam, embora façam isso em silêncio, para não assustar ninguém. E aquela mochila, que já tinha visto de tudo, desde migalhas de biscoito até bilhetes secretos, decidiu que era hora de entender melhor seus próprios habitantes.

Tudo começou quando Nina a colocou no chão da sala e saiu correndo para atender a porta. A mochila ficou ali, quieta, com o zíper entreaberto, como quem respira fundo antes de fazer uma pergunta importante.

Lá dentro, os objetos estavam espalhados depois de um dia cheio. A caneta azul estava deitada de lado, como se tivesse corrido uma maratona de palavras. O lápis descansava com a ponta para cima, orgulhoso de ainda estar inteiro. A borracha cochilava, porque apagar pensamentos cansa. A régua observava tudo com seu jeito metódico. A tesoura balançava as lâminas devagar, como quem afia ideias. E o caderno, sempre atento, mantinha suas páginas fechadas, mas não por preguiça: era concentração.

A mochila pigarreou. Ou fez o som mais parecido com isso que uma mochila consegue fazer.

— Posso fazer uma pergunta?

Disse ela, com sua voz de tecido.

Os objetos se entreolharam. Não era comum a mochila falar. Ela geralmente só carregava, guardava e protegia. Mas naquele dia, parecia querer mais.

— Claro.

Respondeu o caderno, que era o mais diplomático.

— Eu queria entender uma coisa. Vocês vivem aqui dentro, cada um com sua função. Mas… como sabem que são importantes?

A tesoura abriu as lâminas, surpresa.

— Ué, porque somos usados, não?

— Nem sempre. Às vezes vocês passam dias sem serem tocados. E mesmo assim continuam confiantes.

Disse a mochila.

A borracha acordou, esfregando os cantos arredondados.

— Eu não sou tão confiante assim. Às vezes acho que vou desaparecer de tanto apagar.

A caneta azul suspirou.

— Eu fico ansiosa quando fico muito tempo sem escrever. Parece que vou explodir de tinta.

A régua, sempre prática, disse:

— Eu sei que sou importante porque mantenho as coisas retas. Mesmo quando ninguém percebe.

O lápis, que falava pouco, murmurou:

— Eu gosto de quando Nina me usa para desenhar. Mas quando ela me deixa de lado, fico imaginando se ainda sirvo para alguma coisa.

O caderno abriu uma página, como quem abre um sorriso.

— Eu acho que a importância não vem do uso. Vem do que podemos oferecer, mesmo quando ninguém está olhando.

A mochila ficou pensativa.

— Mas como vocês sabem o que podem oferecer?

A tesoura respondeu primeiro:

— Eu corto. É isso que faço. Mas também posso ajudar Nina a criar coisas novas. E isso me deixa feliz.

A régua completou:

— Eu meço. Mas também ajudo Nina a entender proporções, distâncias, tamanhos. Não é só sobre números. É sobre ver o mundo de outro jeito.

A borracha disse:

— Eu apago. Mas apagar não é desfazer. É dar chance de tentar de novo.

A caneta azul falou com entusiasmo:

— Eu escrevo. Mas escrever não é só registrar. É transformar pensamentos em algo que pode ser visto.

O lápis, tímido, disse:

— Eu desenho. Mas desenhar é imaginar com a ponta.

O caderno fechou a página devagar.

— E eu guardo tudo isso. Não para prender, mas para lembrar.

A mochila ouviu cada palavra com atenção. Era como se estivesse descobrindo um segredo antigo, escondido entre migalhas e papéis amassados.

— Então vocês acham que são importantes porque têm funções diferentes?

Perguntou ela.

— Não. Somos importantes porque somos diferentes. E porque, juntos, fazemos parte da vida de Nina.

Disse o caderno.

A tesoura concordou.

— Se eu tentasse medir, seria um desastre.

A régua riu.

— E se eu tentasse cortar, seria pior ainda.

A borracha acrescentou:

— E se eu tentasse escrever, não ia sair nada.

A caneta azul balançou a tampa.

— Cada um faz o que sabe. E isso basta.

A mochila ficou emocionada. Se tivesse olhos, talvez até lacrimejasse.

— Eu sempre achei que vocês só serviam para tarefas. Nunca pensei que tivessem tantas ideias sobre si mesmos.

O lápis disse:

— É que você carrega a gente, mas não vê o que acontece lá fora. Nina usa cada um de nós de um jeito especial.

A mochila suspirou.

— Eu queria ver.

O caderno respondeu:

— Você vê, só não percebe. Cada marca de grafite que volta para dentro de você, cada página escrita, cada pedacinho de papel cortado… tudo isso é um pedaço da história de Nina que você carrega.

A mochila ficou em silêncio. Um silêncio bom, desses que deixam o pensamento respirar.

Então, de repente, Nina voltou correndo. Pegou a mochila, colocou nas costas e saiu pulando pela casa. A mochila balançava, mas dessa vez não se incomodou. Pelo contrário: sentiu-se parte de algo maior.

Enquanto Nina caminhava, os objetos lá dentro continuaram conversando, agora com uma leveza nova. A mochila, pela primeira vez, entendeu que não era apenas um lugar para guardar coisas. Era um lar. Um lar cheio de diferenças que se completavam.

E naquele dia, sem que ninguém percebesse, a mochila aprendeu que importância não se mede pelo tamanho, nem pelo uso, nem pelo brilho. Importância se mede pelo que cada um é capaz de oferecer ao mundo, mesmo que o mundo seja só o fundo acolchoado de uma mochila escolar.

Keila Martins de Oliveira (PGIA)

Redação Sabeis – Baú de contos

XXXXXXXXX

Redação Sabeis – X