Arquivo de crônicas - Sabeis https://portalbarflam.com.br/category/cronicas/ Mon, 05 Oct 2026 12:05:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1.3 https://portalbarflam.com.br/wp-content/uploads/2025/12/cropped-Logo-Sabeis-32x32.png Arquivo de crônicas - Sabeis https://portalbarflam.com.br/category/cronicas/ 32 32 O Cansaço das Telas e a Tragédia do Agora https://portalbarflam.com.br/cansaco-telas-tragedia-agora/ Mon, 05 Oct 2026 11:50:37 +0000 https://sabeis.com.br/?p=30255 Crônicas O Cansaço das Telas e a Tragédia do Agora (05/10/26) A angústia moderna tem Wi-Fi. Ela vibra no bolso, pisca na tela, apita no ouvido. Acordamos com notificações, dormimos com alertas, e no meio disso fingimos que estamos “conectados”, quando, na verdade, estamos só exaustos. O mundo virou uma corrida sem linha de chegada, […]

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Crônicas

O Cansaço das Telas e a Tragédia do Agora

(05/10/26)

A angústia moderna tem Wi-Fi. Ela vibra no bolso, pisca na tela, apita no ouvido. Acordamos com notificações, dormimos com alertas, e no meio disso fingimos que estamos “conectados”, quando, na verdade, estamos só exaustos. O mundo virou uma corrida sem linha de chegada, onde o prêmio é não ficar para trás. Tudo é urgente, tudo é agora, tudo é demais. E o cérebro, coitado, tenta acompanhar, tropeçando entre mensagens, vídeos, feeds e promessas de produtividade. A mente não descansa mais; virou um aplicativo rodando em segundo plano, consumindo bateria até apagar.

O drama começa cedo. O despertador toca e, antes do café, já estamos rolando o celular. Notícias, fofocas, tragédias, promoções, memes. Uma overdose de informação servida com açúcar e ansiedade. O dia mal começou e já estamos cansados. E o pior é que gostamos. Há um prazer estranho em se sentir ocupado, em fingir que o caos é sinal de importância. “Não tenho tempo pra nada”, dizemos com orgulho, como se fosse uma medalha. Mas é só confissão de dependência. O vício da pressa.

A tecnologia prometeu facilitar a vida, mas acabou complicando o espírito. Tudo ficou mais rápido, mas ninguém ficou mais tranquilo. A cada segundo, uma nova atualização, uma nova opinião, uma nova polêmica. O mundo virou um grande grupo de WhatsApp, onde todo mundo fala ao mesmo tempo e ninguém escuta ninguém. E quem tenta se desconectar é visto como alienado, preguiçoso, quase um traidor da modernidade. O silêncio virou suspeito.

Há algo de cruel nesse ritmo. A mente humana não foi feita para processar mil estímulos por minuto. E, mesmo assim, insistimos. Queremos saber de tudo, opinar sobre tudo, participar de tudo. Como se o valor da existência estivesse na quantidade de notificações recebidas. É uma espécie de ansiedade coletiva, um medo de ficar de fora. O famoso “não posso perder nada”. Mas, ironicamente, é justamente isso que estamos perdendo: o tempo, o foco, a paz.

O corpo sente. O sono é leve, a cabeça dói, o humor oscila. E o coração, esse velho romântico, tenta acompanhar o ritmo das máquinas. Mas não dá. Ele ainda bate no compasso humano, lento, imperfeito, cheio de pausas. Só que o mundo não tem paciência para pausas. Quer respostas instantâneas, emoções rápidas, decisões imediatas. A lentidão virou defeito. E quem desacelera é atropelado.

O mais curioso é que, no fundo, sabemos que isso está nos destruindo. Sabemos que o excesso de informação não é sabedoria, que o excesso de estímulo não é felicidade. Mas seguimos. Porque parar é encarar o vazio. E o vazio assusta. É mais fácil se distrair do que se entender. Mais fácil abrir o celular do que abrir a própria cabeça. A pressa virou anestesia.

Há uma ironia amarga nisso tudo. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, e nunca fomos tão confusos. Nunca tivemos tantos meios de comunicação, e nunca nos sentimos tão sozinhos. A tecnologia nos aproximou das telas e nos afastou das pessoas. E, no meio dessa avalanche de dados, esquecemos o básico: respirar, olhar, sentir. O mundo gira rápido demais, e nós giramos junto, tontos, sem saber onde vamos parar.

Talvez o futuro não precise de mais velocidade, mas de mais pausa. Talvez o verdadeiro avanço seja conseguir desligar. Fechar o celular, ignorar o e-mail, deixar o mundo lá fora por um instante. Não é fuga, é sobrevivência. Porque, se tudo continuar nesse ritmo, o próximo colapso não será tecnológico, será humano.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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Educação de Berço e Outros Desastres Domésticos https://portalbarflam.com.br/educacao-berco-outros-desastres-domesticos/ Mon, 21 Sep 2026 12:46:30 +0000 https://sabeis.com.br/?p=29241 Crônicas Educação de Berço e Outros Desastres Domésticos (21/09/26) A conversa anda torta quando o assunto é essa mania moderna de terceirizar tudo, inclusive aquilo que sempre foi íntimo, caseiro, quase sagrado: a educação dos filhos. Hoje, muitos pais parecem acreditar que escola é uma espécie de lava-rápido moral, onde a criança entra suja de […]

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Educação de Berço e Outros Desastres Domésticos

(21/09/26)

A conversa anda torta quando o assunto é essa mania moderna de terceirizar tudo, inclusive aquilo que sempre foi íntimo, caseiro, quase sagrado: a educação dos filhos. Hoje, muitos pais parecem acreditar que escola é uma espécie de lava-rápido moral, onde a criança entra suja de mundo e sai brilhando em cidadania, respeito e boa convivência. Como se professores fossem mágicos capazes de ensinar matemática, português, ciências e, de quebra, transformar pequenos tiranos domésticos em cidadãos exemplares. É curioso, e trágico, ver como essa transferência de responsabilidade virou hábito, como se a formação básica não começasse mais no berço, mas na fila da secretaria escolar.

O drama aparece nas pequenas cenas do cotidiano. A mãe que reclama que o filho não respeita ninguém, mas passa o dia berrando com ele. O pai que exige disciplina, mas não sabe dizer “não” sem pedir desculpa. A família que se orgulha de “não bater”, mas vive distribuindo humilhações disfarçadas de piada. E depois, claro, sobra para a escola resolver. Professores viram bombeiros emocionais, psicólogos improvisados, árbitros de brigas que começaram em casa. E ainda precisam ensinar fração, fotossíntese e análise sintática. É quase uma comédia, se não fosse tão triste.

A verdade é que muita gente anda perdida. Não sabe como educar, não sabe como impor limites, não sabe como lidar com frustração, nem a própria, nem a dos filhos. E aí surge a solução mágica: delegar. A escola vira depósito de expectativas. “Ensinem meu filho a ser educado.” “Ensinem meu filho a ter responsabilidade.” “Ensinem meu filho a se comportar.” Como se tudo isso fosse conteúdo de apostila, com exercícios e gabarito. Só que não é. Nunca foi.

E o mais curioso é que, quando a escola tenta fazer esse papel extra, vem a reclamação. “Estão se metendo demais.” “Estão ensinando valores que não concordo.” “Estão querendo educar meu filho.” Ora, mas não era exatamente isso que pediram? Existe uma contradição deliciosa, e perigosa, nessa história. Pais que não querem educar, mas também não querem que outros eduquem. Querem filhos perfeitos, mas sem esforço. Querem respeito, mas não dão exemplo. Querem limites, mas não suportam a ideia de serem os responsáveis por colocá-los.

No fundo, há um medo enorme de assumir o próprio papel. Educar dá trabalho. Exige presença, paciência, firmeza, coerência. Exige olhar para si mesmo e perceber que, muitas vezes, o problema não está na criança, mas no adulto que a guia. E isso dói. É mais fácil culpar a escola, culpar a sociedade, culpar o celular, culpar qualquer coisa que não seja o espelho.

Enquanto isso, professores seguem tentando. Tentam ensinar convivência, tentam ensinar respeito, tentam ensinar autocontrole. Tentam, porque sabem que, sem isso, o resto não funciona. Mas também sabem que estão enxugando gelo. A escola pode reforçar valores, pode orientar, pode acolher. Mas não pode substituir o que deveria vir de casa. Não pode ser mãe, pai, avó, tio, padrasto, madrasta e ainda ser professora. Não dá.

E o resultado dessa confusão aparece nas salas de aula: crianças que não sabem lidar com frustração, adolescentes que não suportam regras, jovens que acreditam que tudo é negociável. E adultos que continuam achando que a culpa é da escola. É um ciclo que se retroalimenta, uma espécie de tragédia silenciosa que se desenrola todos os dias, sem plateia, sem aplausos, sem final feliz.

Talvez o caminho seja simples, embora ninguém goste de ouvir: educação começa em casa. Sempre começou. A escola é parceira, não substituta. E quando essa ordem se inverte, tudo desanda. Não é questão de nostalgia, nem de conservadorismo barato. É só lógica. Criança aprende primeiro com quem está perto. Aprende pelo exemplo, pelo olhar, pelo gesto. Aprende no café da manhã, na bronca bem dada, no limite claro, no carinho sem culpa.

Se os pais não assumirem isso, não há escola que dê conta. E aí, no fim das contas, quem paga o preço é a criança, que cresce sem saber quem deve ouvir, quem deve seguir, quem deve confiar. Cresce perdida, como muitos adultos já estão. E o país inteiro sente o impacto dessa bagunça doméstica.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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A arte nacional de empurrar a verdade para o canto https://portalbarflam.com.br/arte-nacional-empurrar-verdade-para-canto/ Mon, 07 Sep 2026 11:45:14 +0000 https://sabeis.com.br/?p=28212 Crônicas A arte nacional de empurrar a verdade para o canto (07/09/26) Me deixa assustado a facilidade com que as pessoas mentem hoje em dia para ganhar vantagem, mesmo que isso empurre alguém para o prejuízo. Está em todo lugar, como se fosse parte da paisagem. A pessoa mente com a mesma naturalidade com que […]

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A arte nacional de empurrar a verdade para o canto

(07/09/26)

Me deixa assustado a facilidade com que as pessoas mentem hoje em dia para ganhar vantagem, mesmo que isso empurre alguém para o prejuízo. Está em todo lugar, como se fosse parte da paisagem. A pessoa mente com a mesma naturalidade com que respira, sem ruborizar, sem hesitar, sem sequer pensar no estrago que deixa para trás. E o mais curioso é que ninguém mais parece se incomodar. A mentira virou um truque socialmente aceito, quase um talento. Quem domina, sobe na vida. Quem não domina, vira otário.

O cenário é sempre parecido. Alguém faz uma bobagem, percebe que pode se safar com uma historinha rápida e pronto: inventa. A mentira sai lisa, polida, ensaiada. A pessoa nem tropeça. E o outro, que sofre o impacto, fica ali tentando entender como alguém consegue distorcer a realidade com tanta desenvoltura. É como assistir a um espetáculo onde o ator principal não tem vergonha de improvisar qualquer coisa para não assumir seu erro. E o público, cansado, acaba aceitando.

Essas pequenas farsas do cotidiano carregam uma carga emocional que ninguém admite. A pessoa mente para se proteger, mas também para alimentar aquela sensação íntima de superioridade. É como se dissesse para si mesma: “Eu mereço mais do que o resto”. E, claro, se merece mais, pode trapacear. A mentira vira justificativa moral. O outro que aguente. O outro que limpe a bagunça. O outro que arque com o prejuízo. A lógica é simples e cruel.

E não pense que isso acontece só em grandes situações. Está no detalhe. No sujeito que diz que “não viu” o aviso. Na mulher que afirma que “não sabia” da regra. No jovem que garante que “não foi ele” quem causou o problema. Todos com aquela cara de inocência treinada, como se a vida fosse um jogo onde o objetivo é escapar de qualquer responsabilidade. E, claro, sempre há alguém que paga a conta.

O mais irônico é que, apesar de tanta esperteza, a mentira cobra seu preço. A pessoa precisa sustentar a versão inventada, lembrar dos detalhes, evitar contradições. É um esforço mental que vai se acumulando, criando tensão, irritação, desgaste. A culpa, mesmo escondida, fica ali, cutucando. E quanto mais a pessoa mente, mais precisa mentir para manter a história de pé. É uma espiral que não termina bem.

Mas existe outro lado, igualmente contraditório. A sociedade critica a mentira, mas também admira quem mente bem. Existe uma espécie de fascínio pela esperteza alheia, como se fosse uma habilidade de sobrevivência. A gente condena, mas também inveja tal capacidade. É um moralismo torto, que mistura indignação com voyeurismo. A pessoa vê o mentiroso se dar bem e pensa, mesmo que não admita: “Que sujeito esperto, como ele faz isso?”.

E enquanto isso, a convivência vai se deteriorando. A confiança se esfarela. A palavra perde valor. O olhar desconfiado vira padrão. Ninguém acredita em ninguém. E quando ninguém acredita em ninguém, tudo fica mais pesado. As relações ficam tensas, os ambientes ficam hostis, a vida fica mais cansativa. A mentira, que parecia solução rápida, vira veneno lento.

Ainda assim, há quem tente manter algum senso de decência. Gente que prefere falar a verdade, mesmo quando ela não rende vantagem. Gente que ainda acredita que honestidade não é coisa de bobo. Mas essa turma anda em extinção. E, convenhamos, remar contra a corrente exige coragem. Coragem que anda rara.

No fim, o que assusta não é a mentira em si, mas a naturalidade com que ela é usada. Como se fosse parte da rotina, como se não houvesse mais vergonha. E quando a vergonha desaparece, o resto vai junto. A verdade vira detalhe. A ética vira enfeite. E a convivência vira campo minado.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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O Fraco https://portalbarflam.com.br/o-fraco/ Mon, 24 Aug 2026 11:36:32 +0000 https://sabeis.com.br/?p=27205 Crônicas O Fraco (24/08/26) Logo cedo, ouvi o vizinho gritar que “homem de verdade não leva desaforo para casa”. Era sobre isso que eu pensava enquanto fazia a barba: essa mania de alguns homens acharem que nasceram com um crachá de superioridade pendurado no pescoço. Eles falam alto, batem no peito, fazem pose de muralha… […]

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O Fraco

(24/08/26)

Logo cedo, ouvi o vizinho gritar que “homem de verdade não leva desaforo para casa”. Era sobre isso que eu pensava enquanto fazia a barba: essa mania de alguns homens acharem que nasceram com um crachá de superioridade pendurado no pescoço. Eles falam alto, batem no peito, fazem pose de muralha… mas basta um sopro de contrariedade para desmoronarem como castelos de areia. É curioso como esses autoproclamados fortes vivem em guerra com qualquer mulher que ouse existir fora do roteiro deles. E o mais trágico é que eles realmente acreditam que essa postura é sinal de força, quando na verdade é só medo mal disfarçado.

A cena do vizinho não era novidade. Ele vive repetindo frases prontas, como se estivesse sempre ensaiando para um papel que nunca domina. A cada discussão, ele sobe o tom, como se volume fosse argumento. E eu fico ali, ouvindo pela parede, pensando em quantos homens passam a vida inteira tentando provar algo que ninguém pediu. É quase comovente, se não fosse tão destrutivo. Eles se agarram a uma fantasia de poder que só funciona quando alguém está por baixo, e adivinha quem costuma ser esse alguém?

No fundo, é tudo uma tentativa desesperada de esconder fragilidades que eles juram não ter. É como se tivessem aprendido desde pequenos que sentir é proibido, que duvidar é fraqueza, que pedir ajuda é humilhação. Aí crescem e viram adultos que confundem respeito com obediência, diálogo com ameaça, mulher com inimiga. E quando percebem que o mundo não gira em torno deles, entram em curto-circuito. A culpa, claro, nunca é deles. É sempre “delas”.

Outro dia, no mercado, vi um sujeito reclamar porque a caixa pediu para ele esperar na fila. Ele bufou, revirou os olhos, fez aquele teatro de indignação. “Eu trabalho o dia inteiro!”, ele disse, como se os outros estivessem ali de férias. A caixa, paciente, apenas repetiu que havia pessoas antes dele. Ele saiu resmungando, derrotado por uma mulher que só estava fazendo o próprio trabalho. A tragédia cotidiana de quem não suporta ser contrariado por alguém que não se curva.

Esses homens vivem como se estivessem sempre prestes a serem desmascarados. E talvez estejam mesmo. Porque, quando a máscara cai, o que aparece não é força, mas insegurança. Não é coragem, mas medo. Não é liderança, mas dependência de um papel que não faz sentido há muito tempo. Eles se dizem protetores, mas quem precisa ser protegido deles são justamente as mulheres que eles juram amar.

E é curioso como muitos deles se reúnem em grupos, conversas, rodinhas, sempre reforçando uns aos outros que estão certos. É quase uma irmandade da fragilidade. Eles repetem frases feitas, compartilham teorias absurdas, alimentam uns aos outros com a ilusão de que são vítimas de um mundo que não reconhece sua grandeza. E enquanto isso, continuam incapazes de olhar para dentro e admitir que o problema não está “nelas”, mas neles mesmos.

A ironia é que, no fundo, eles sabem. Sabem que não são tão fortes quanto dizem. Sabem que não têm controle sobre tudo. Sabem que a vida não obedece suas ordens. E essa consciência, mesmo que silenciosa, os atormenta. Por isso atacam, gritam, diminuem, ridicularizam. É a forma que encontram de tentar calar o próprio medo.

Mas o medo não cala. Ele só muda de lugar. E volta, sempre volta. Volta quando a mulher decide ir embora. Volta quando o filho pergunta por que ele grita tanto. Volta quando ninguém mais leva a sério suas bravatas. Volta quando ele percebe que a força que tanto exibe não convence nem a si mesmo.

Talvez um dia eles entendam que grandeza não se mede no volume da voz, mas na capacidade de ouvir. Que respeito não se impõe, se constrói. Que força não é dominar, é reconhecer limites. E que nenhum homem se torna maior diminuindo uma mulher.

Até lá, seguimos assistindo a essas pequenas tragédias diárias. Tragédias que, no fundo, não são sobre poder, mas sobre medo. E sobre homens que, tentando provar que são gigantes, acabam tropeçando no próprio tamanho.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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Não é de interesse dos lobos que os cervos aprendam a voar https://portalbarflam.com.br/nao-interesse-lobos-cervos-aprendam-voar/ Mon, 17 Aug 2026 13:28:35 +0000 https://sabeis.com.br/?p=26611 Crônicas Não é de interesse dos lobos que os cervos aprendam a voar (17/08/26) Quando penso na educação brasileira, não consigo evitar a imagem de um bando de lobos cuidando de uma floresta de cervos. Lobos muito bem alimentados, diga-se de passagem. Cervos, nem tanto. A pergunta que não quer calar, embora devesse gritar, é […]

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Não é de interesse dos lobos que os cervos aprendam a voar

(17/08/26)

Quando penso na educação brasileira, não consigo evitar a imagem de um bando de lobos cuidando de uma floresta de cervos. Lobos muito bem alimentados, diga-se de passagem. Cervos, nem tanto.

A pergunta que não quer calar, embora devesse gritar, é simples: por que nossa educação é tão fraca desde a base?

A resposta, infelizmente, não exige nenhum tratado filosófico. Basta observar o comportamento dos lobos.

Porque, convenhamos, não é do interesse deles que os cervos aprendam a voar.

Outro dia, vi uma pesquisa mostrando que boa parte dos jovens brasileiros não consegue interpretar um texto simples. Não estou falando de poesia concreta ou filosofia alemã. Estou falando de um bilhete, uma instrução, um parágrafo de jornal.

E, enquanto isso, nossos governantes seguem produzindo leis escritas em juridiquês hermético, cheias de vírgulas suspeitas e parágrafos que parecem labirintos. É quase uma coreografia: eles escrevem absurdos, o povo não entende, e tudo segue como sempre.

Se o povo compreendesse o que está sendo feito em seu nome, talvez a história fosse outra. Talvez as ruas estivessem mais cheias, as urnas mais criteriosas, os discursos mais curtos.

Mas não. A ignorância massiva é a grande salvaguarda dos lobos engravatados.

Pense comigo: se a população tivesse letramento suficiente para entender o que está escrito nas leis, perceberia rapidamente que muitas delas são, no mínimo, acrobacias morais. E, se tivesse letramento matemático, então… ah, aí seria o caos para os corruptos.

Porque boa parte das peripécias com dinheiro público só funciona porque o povo não sabe fazer conta. Não sabe calcular porcentagem, juros, desvios, superfaturamentos. Não sabe comparar orçamento previsto com orçamento executado.

E, quando não se sabe fazer conta, qualquer número parece grande. Ou pequeno. Ou irrelevante.

E é exatamente isso que os lobos querem.

Lembro de uma conversa que tive com um professor de matemática. Ele dizia que ensinar porcentagem era como ensinar alguém a enxergar no escuro. De repente, tudo que antes parecia nebuloso se torna claro. Você começa a perceber padrões, exageros, manipulações.

E é justamente por isso que a matemática é tão negligenciada. Não porque seja difícil, mas porque é perigosa.

Perigosa para quem lucra com a confusão alheia.

A educação brasileira, no fundo, funciona como uma cerca elétrica invisível. Ela não impede que você ande, só impede que você vá longe demais. Você aprende o suficiente para trabalhar, consumir, obedecer. Mas não o suficiente para questionar, interpretar, exigir.

Outro dia, vi um político dizendo que “o povo não está preparado para certas discussões”. Achei curioso. Porque, se o povo não está preparado, quem deveria prepará-lo? Os mesmos que se beneficiam da falta de preparo?

A verdade é que a ignorância não é um acidente. É um projeto. Um projeto antigo, bem estruturado, cuidadosamente mantido.

E não é um projeto partidário. É um projeto de poder.

Porque, quando o povo sabe ler, mas não interpretar, ele vota pelo slogan. Quando sabe somar, mas não calcular, ele aceita o número que lhe entregam. Quando sabe escrever, mas não argumentar, ele repete o que ouviu.

E, quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, os lobos dormem tranquilos.

Mas há algo ainda mais perverso nessa história. A ignorância não apenas mantém o povo no chão, ela o convence de que o chão é o lugar natural.

É o cervo que acredita que não nasceu para voar. É o cidadão que acha normal não entender o que assina. É o eleitor que acha que política é coisa de gente “mais inteligente”.

E, quando a própria vítima acredita que merece o cercado, o trabalho dos lobos fica muito mais fácil.

Às vezes me pergunto como seria o Brasil se a educação fosse tratada como prioridade real, e não como slogan de campanha. Se as escolas ensinassem não apenas a ler, mas a compreender. Não apenas a somar, mas a analisar. Não apenas a repetir, mas a questionar.

Talvez tivéssemos menos lobos. Ou, pelo menos, lobos mais cuidadosos.

Porque, quando o povo aprende a voar, a vista muda. E, lá de cima, fica muito mais fácil enxergar quem está devorando quem.

Mas, por enquanto, seguimos assim: cervos com asas dobradas, acreditando que não nasceram para voar. E lobos satisfeitos, cuidando para que ninguém descubra o contrário.

Porque, no fim das contas, a pergunta que ecoa é simples: por que os lobos dariam asas aos cervos?

A resposta é ainda mais simples: porque cervos que voam deixam de ser cervos e se tornam um outro animal, águias talvez.

E isso, para os lobos, seria um grande problema.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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Perdemos o Manual de Instruções da Democracia https://portalbarflam.com.br/perdemos-manual-instrucoes-democracia/ Tue, 04 Aug 2026 12:45:31 +0000 https://sabeis.com.br/?p=25570 Crônicas Perdemos o Manual de Instruções da Democracia (04/08/26) Dizem que vivemos em uma democracia. A palavra, tão bonita na teoria, vem daquele grego clássico que adoramos citar para parecer cultos: demos (povo) + kratos (poder). Poder do povo. Simples, direto, quase poético. Mas, como tudo que envolve seres humanos, a prática costuma ser menos […]

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Perdemos o Manual de Instruções da Democracia

(04/08/26)

Dizem que vivemos em uma democracia. A palavra, tão bonita na teoria, vem daquele grego clássico que adoramos citar para parecer cultos: demos (povo) + kratos (poder). Poder do povo. Simples, direto, quase poético. Mas, como tudo que envolve seres humanos, a prática costuma ser menos lírica.

Às vezes me pergunto se o que chamamos de democracia não é apenas um ritual cívico performático, uma espécie de teatro obrigatório a cada dois anos, no qual apertamos alguns botões e fingimos que estamos decidindo o destino da nação. Uma catarse coletiva, dessas que aliviam a consciência, mas não mudam a realidade.

Porque, sejamos honestos: se democracia fosse apenas votar, reality show também seria regime político.

O problema é que confundimos o ato com o conceito. Votar virou sinônimo de poder, quando na verdade é só o primeiro passo, e, ironicamente, o mais frágil. O poder real não está no botão apertado, mas no entendimento do que aquele botão significa.

E aí começa a tragédia.

O povo, esse protagonista teórico da democracia, raramente compreende o roteiro. Não por incapacidade, mas por falta de instrução, e, principalmente, por falta de interesse dos que deveriam instruir. Afinal, ignorância coletiva é o melhor seguro de vida dos maus políticos.

É como entregar a chave de casa para alguém que não sabe a diferença entre porta e janela. Ele até pode entrar, mas não vai entender o que está fazendo ali.

Outro dia, me peguei imaginando a democracia como uma casa com um casal e três crianças. Todos votam no cardápio do jantar. Adivinha o resultado? Fast-food todo dia. Não porque as crianças sejam tiranas, mas porque são… crianças. Elas votam pelo prazer imediato, não pela saúde a longo prazo.

E aí alguém aparece, indignado, dizendo que estou defendendo tirar o voto dos menos instruídos. Não, pelo contrário. O que eu queria mesmo é que a instrução fosse o requisito básico para votar. Não instrução acadêmica, mas instrução cívica.

Porque, convenhamos, não faz sentido exigir mais preparo para dirigir um carro do que para escolher quem dirige um país.

Pense no motorista. Antes de receber a carteira de habilitação, ele passa por provas e exames. Aprende regras, sinais, limites. Tudo para reduzir o risco de causar um acidente.

Agora pense no eleitor. Ele recebe o título sem precisar demonstrar qualquer conhecimento sobre o sistema político. Não precisa saber o que faz um deputado, para que serve o Senado, qual é a função de um vereador ou o que exatamente o Executivo executa.

E aí, sem entender o básico, ele escolhe quem vai legislar, fiscalizar, administrar, decidir, gastar, vetar, sancionar.

É como entregar um avião para alguém que nunca viu um painel de controle e torcer para que ele aprenda no ar.

Mas o ponto central não é a crítica ao eleitor. É a crítica ao sistema que se beneficia da ignorância dele. Porque, se o povo realmente entendesse o poder que tem, mais da metade dos políticos perderia o emprego no dia seguinte.

E eles sabem disso.

Por isso, investem pesado em manter a população entretida, distraída, dividida. Transformam política em torcida organizada, debate em briga de bar, opinião em arma. Criam inimigos imaginários, salvadores improváveis, narrativas emocionais que dispensam raciocínio.

E o povo, cansado, sobrecarregado, sem tempo para estudar o funcionamento do Estado, acaba aceitando a versão mais simples: votar é exercer poder.

Quando, na verdade, votar sem consciência é só terceirizar o próprio destino.

A democracia, do jeito que está, virou uma espécie de contrato assinado sem ler. A gente concorda com os termos porque todo mundo concorda, porque sempre foi assim, porque não dá para viver sem. Mas ninguém sabe exatamente o que está aceitando.

E, como em qualquer contrato mal lido, quem lucra é sempre o outro lado.

Às vezes imagino como seria se o título eleitoral exigisse um exame básico de compreensão cívica. Nada complexo, não estou falando de filosofia política ou teoria do Estado. Só o mínimo: saber o que faz um senador, para que serve a Câmara, qual é a diferença entre município, estado e União.

Seria pedir demais?

Talvez. Mas pedir menos do que isso é aceitar que o país seja conduzido por escolhas feitas no escuro.

E, convenhamos, já tropeçamos demais nessa escuridão.

Mas há um detalhe que não podemos ignorar: conhecimento não é garantia de virtude. Há pessoas altamente instruídas que usam sua inteligência para manipular, distorcer, enganar. E há pessoas simples, com pouca escolaridade formal, que têm uma sabedoria moral que não se aprende em livros.

Então, não se trata de elitizar o voto. Trata-se de democratizar o entendimento.

Porque democracia sem consciência é só um slogan bonito.

E slogans, como sabemos, são a especialidade dos que querem parecer democráticos sem realmente sê-lo.

O que me incomoda não é a democracia em si, mas a versão adulterada que vendem para nós. Uma democracia de fachada, onde o povo participa do processo, mas não do poder. Onde a escolha é livre, mas a compreensão é limitada. Onde a responsabilidade é coletiva, mas a culpa é sempre individual.

E, no fim, quando tudo dá errado, e sempre dá, dizem que a culpa é do povo que votou mal.

Mas como culpar alguém por errar quando nunca lhe ensinaram a acertar?

A verdade é que o poder só existe com consciência. Sem ela, vira ilusão. Vira fantasia. Vira teatro.

E nós, espectadores disciplinados, aplaudimos no final, acreditando que participamos da peça.

Mas, no fundo, sabemos que não escrevemos o roteiro.

Ainda.

Talvez um dia a democracia deixe de ser apenas o direito de votar e passe a ser o direito de entender. Talvez um dia o povo perceba que poder não é apertar um botão, mas compreender o que aquele botão representa. Talvez um dia a instrução cívica seja tão natural quanto aprender a tabuada.

E, quando esse dia chegar, talvez finalmente possamos dizer que vivemos em uma democracia de verdade.

Até lá, seguimos no improviso, torcendo para que, mesmo sem manual de instruções, o estrago não seja irreversível.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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O lugar de fala de quem não tem lugar de fala https://portalbarflam.com.br/lugar-fala-quem-nao-tem-lugar-fala/ Mon, 15 Jun 2026 12:43:42 +0000 https://sabeis.com.br/?p=22895 Crônicas O lugar de fala de quem não tem lugar de fala (16/06/26) Há quem diga que o mundo ficou mais barulhento. Eu, particularmente, acho que ele ficou mais cheio de placas. Placas imaginárias, claro, daquelas que não estão pregadas em postes, mas na testa das pessoas. Placas que dizem quem pode falar, quem deve […]

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Crônicas

O lugar de fala de quem não tem lugar de fala

(16/06/26)

Há quem diga que o mundo ficou mais barulhento. Eu, particularmente, acho que ele ficou mais cheio de placas. Placas imaginárias, claro, daquelas que não estão pregadas em postes, mas na testa das pessoas. Placas que dizem quem pode falar, quem deve calar, quem tem autorização moral para se indignar e quem precisa aguardar sua vez na fila da dor.

E, como toda fila brasileira, essa também tem seus fiscais. Os fiscais do sofrimento. Os guardiões do “lugar de fala”.

Eu, por exemplo, descobri recentemente que não tenho lugar de fala. Não é que eu tenha perdido, nunca tive. Sou homem, branco, heterossexual, com boa escolaridade e segurança financeira. A vida, dizem, me deu um pacote de privilégios tão completo que, se eu ousar abrir a boca para falar de racismo, misoginia ou homofobia, cometerei uma espécie de invasão de território moral.

É curioso. Passei a vida acreditando que indignação era um sentimento humano, universal, desses que brotam quando vemos algo injusto. Mas, aparentemente, indignação agora tem dono, CEP e certidão de nascimento.

E, se você não pertence ao grupo certo, sua indignação vira apropriação. Sua empatia vira abuso. Seu desejo de contribuir vira opressão.

Outro dia, enquanto esperava meu café ficar pronto, me peguei pensando no absurdo disso tudo. A máquina fazia aquele barulho de vapor, e eu ali, parado, refletindo sobre como o mundo conseguiu transformar empatia em contrabando.

Porque é isso que o tal “lugar de fala” virou na mão de quem o usa como arma: um mecanismo de controle. Uma fronteira simbólica onde só entra quem tem o passaporte correto.

E, veja bem, não estou falando da ideia original, aquela que buscava dar voz a quem historicamente foi silenciado. Essa ideia é justa, necessária, urgente. O problema é o que fizeram com ela. O problema é quando a ferramenta vira trincheira. Quando a ponte vira muro. Quando a conversa vira disputa de legitimidade.

Transformaram o “lugar de fala” em “lugar de cala”.

E eu, que sempre achei que empatia era justamente a capacidade de se colocar no lugar do outro, descobri que, para alguns, isso é proibido. “Você não sabe como é”, dizem. “Você não viveu isso.”

É verdade. Eu não vivi. Mas desde quando a dor precisa ser vivida para ser compreendida? Desde quando a injustiça precisa ser experimentada para ser repudiada? Desde quando a humanidade virou um clube fechado?

Lembro de uma cena que me marcou. Estava no metrô, anos atrás, quando vi um homem negro ser abordado por dois seguranças. Ele não tinha feito nada, absolutamente nada. Só estava ali, parado, esperando a próxima composição. Mas os olhares desconfiados pousaram sobre ele como aves de rapina.

Eu senti indignação. Senti vergonha. Senti vontade de intervir.

Mas, se fosse hoje, talvez alguém me dissesse que essa indignação não me pertence. Que minha revolta contra o racismo não tem muito valor porque não tenho ancestralidade negra. Que meu incômodo é inválido e ilegítimo.

E isso me assusta. Porque se começarmos a deslegitimar a empatia, o que sobra? Se cada um só puder se indignar com a dor que viveu, estaremos condenados a um mundo de pequenas ilhas emocionais, cada uma cercada de muros altos e guardas na porta.

O mais irônico é que, ao tentar me calar, esses fiscais do sofrimento acabam me dando justamente o que dizem que eu não tenho: um lugar de fala.

Sim, porque quando alguém tenta me impedir de sentir empatia, está interferindo diretamente na minha experiência humana. Está me dizendo como devo reagir, o que posso ou não posso sentir. Está me impondo uma identidade emocional que não escolhi.

E isso, veja só, também é uma forma de opressão.

Não a opressão histórica, estrutural, profunda, essa que realmente destrói vidas e precisa ser combatida com todas as forças. Mas uma opressão simbólica, cotidiana, que tenta reduzir pessoas a categorias fixas, como se fôssemos personagens de um manual sociológico mal escrito.

A verdade é que ninguém deveria ser proibido de se indignar com o sofrimento alheio. A indignação é uma das poucas forças que ainda nos empurram para fora da bolha do egoísmo. É ela que faz alguém parar no meio da rua para ajudar um desconhecido. É ela que faz um adolescente defender um colega vítima de bullying. É ela que faz uma sociedade inteira se mobilizar diante de uma injustiça.

E, se começarmos a policiar quem pode sentir o quê, mataremos a empatia pela raiz.

Empatia não é sobre ter vivido a mesma dor. É sobre reconhecer a humanidade do outro. É sobre perceber que a dor dele, mesmo que diferente da sua, ainda é dor.

E dor, meu amigo, não precisa de tradução.

Mas talvez o ponto mais triste dessa história seja perceber que, por trás desse policiamento emocional, existe um medo profundo. Medo de perder espaço. Medo de que a dor de uns seja engolida pela voz de outros. Medo de que a história se repita, e os silenciados de ontem voltem a ser silenciados amanhã.

Esse medo é compreensível. É legítimo. É humano.

Mas não podemos deixar que ele nos transforme em guardiões de fronteiras imaginárias. Não podemos permitir que a luta por equidade vire uma disputa por monopólio moral.

Porque, no fim das contas, a verdadeira mudança não acontece quando cada grupo fala apenas para si. A mudança acontece quando as dores se encontram. Quando as indignações se somam. Quando a empatia circula livremente, sem passaporte, sem carimbo, sem autorização prévia.

Eu não quero roubar o lugar de fala de ninguém. Não quero ocupar espaço que não é meu. Não quero ser protagonista de uma história que não vivi.

Mas também não quero ser proibido de sentir.

Não quero que me digam que minha indignação é inválida. Não quero que me convençam de que minha empatia é uma forma de opressão. Não quero viver em um mundo onde a solidariedade precisa pedir permissão para existir.

Quero apenas poder olhar para o sofrimento alheio e dizer, com sinceridade: “Isso é errado. Isso me dói também. Isso precisa mudar.”

E, se isso não for permitido, então talvez o problema não esteja no meu lugar de fala. Talvez esteja no silêncio que tentam me impor.

No fim, percebo que meu verdadeiro lugar de fala é justamente esse: o lugar de fala de quem não tem lugar de fala. O lugar de quem observa o mundo construir muros emocionais e insiste em derrubá-los com palavras. O lugar de quem acredita que empatia não é privilégio, é responsabilidade.

E, se alguém quiser me tirar esse lugar, vai ter trabalho. Porque, ao contrário do que dizem, indignação não é propriedade privada. É patrimônio da humanidade.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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O país das campanhas eternas https://portalbarflam.com.br/pais-campanhas-eternas/ Mon, 18 May 2026 13:43:07 +0000 https://sabeis.com.br/?p=21578 Crônicas O país das campanhas eternas (12/05/26) Logo de cara, dá para dizer sem rodeios: vivemos cercados por políticos que só pensa na própria reeleição. É como se cada um acordasse, escovasse os dentes e já começasse a calcular quantos votos aquela escovada rende. Antes da eleição, eles fingem que estão ouvindo o povo; depois […]

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Crônicas

O país das campanhas eternas

(12/05/26)

Logo de cara, dá para dizer sem rodeios: vivemos cercados por políticos que só pensa na própria reeleição. É como se cada um acordasse, escovasse os dentes e já começasse a calcular quantos votos aquela escovada rende. Antes da eleição, eles fingem que estão ouvindo o povo; depois que ganham, fingem que já não ouviram nada. E o mais curioso é que todos, de todos os lados, repetem o mesmo ritual, como se fosse um instinto automático. A vida pública virou um grande espelho onde eles só enxergam a si mesmos.

O problema é que essa obsessão cria um clima estranho, quase sufocante. A gente percebe que nada é feito porque precisa ser feito, mas porque rende like, discurso, corte para a rede social. É como se cada buraco tapado na rua fosse uma declaração de amor ao próprio futuro político. E nós, que só queríamos uma rua sem buracos, viramos figurantes dessa peça mal ensaiada. No fundo, sabemos que não somos prioridade. Somos só plateia, e plateia que não pode vaiar.

É curioso como eles falam em “projeto de país” com a mesma convicção de quem promete começar dieta na segunda-feira. A intenção até parece bonita, mas todo mundo sabe que não vai durar. O que dura mesmo é o medo de perder a boquinha. Esse medo move montanhas, muda discursos, apaga convicções. É impressionante como gente tão segura diante das câmeras treme por dentro só de imaginar ficar sem gabinete, sem assessores, sem carro oficial. O desespero deles é tão grande que, se pudessem, pediriam voto até para poste na rua.

E aí vem aquela culpa silenciosa que ninguém admite. Porque, no fundo, eles sabem que deveriam trabalhar para quem os elegeu. Sabem que prometeram mundos e fundos. Sabem que muita gente acreditou. Mas a culpa não dura muito. Logo aparece um assessor dizendo que a próxima eleição já está logo ali, que é preciso “estratégia”, que é melhor não mexer com certos interesses. E pronto: a consciência volta a dormir tranquila, como se nada tivesse acontecido.

Enquanto isso, nós seguimos assistindo a esse espetáculo repetido. A cada ciclo eleitoral, a mesma coreografia: promessas, sorrisos, visitas repentinas a lugares que eles nunca pisaram antes. Depois, silêncio. E quando o silêncio começa a incomodar, eles reaparecem com um anúncio qualquer, só para lembrar que ainda existem. É quase engraçado, se não fosse trágico. A gente aprende a rir para não chorar.

O mais irônico é que muitos deles se dizem defensores da moral, da família, dos bons costumes. Falam como se fossem guardiões de tudo o que é correto. Mas basta olhar um pouco mais de perto para perceber que a moral deles tem prazo de validade: dura até o próximo corte. Depois disso, vira só mais um acessório de campanha, como o adesivo no carro ou o santinho distribuído na esquina.

E nós seguimos aqui, tentando entender como é que um país inteiro consegue funcionar com tanta gente preocupada apenas com o próprio futuro. Talvez funcione justamente porque o povo, cansado, já se acostumou. Já espera pouco. Já não se surpreende. E isso, no fim das contas, é o que mais alimenta essa engrenagem: a nossa resignação.

Mas ainda dá para cutucar essa ferida. Dá para lembrar que política não deveria ser carreira, mas serviço. Que mandato não é herança, é responsabilidade. Que ninguém deveria viver em campanha permanente enquanto o resto do país vive em espera permanente. Talvez, se repetirmos isso o suficiente, alguém escute. Ou, pelo menos, finja escutar com um pouco mais de vergonha.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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O Herói Invisível da Sala 12 https://portalbarflam.com.br/heroi-invisivel-sala-12/ Fri, 24 Apr 2026 13:01:08 +0000 https://sabeis.com.br/?p=20249 Crônicas O Herói Invisível da Sala 12 (21/04/26) Logo cedo, enquanto o país inteiro fingia que tudo estava sob controle, lá estava ele, o professor da sala 12, insistindo em ensinar seus alunos como se isso ainda fizesse diferença. E faz, claro que faz, mas só ele parece acreditar nisso com a teimosia de quem […]

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O Herói Invisível da Sala 12

(21/04/26)

Logo cedo, enquanto o país inteiro fingia que tudo estava sob controle, lá estava ele, o professor da sala 12, insistindo em ensinar seus alunos como se isso ainda fizesse diferença. E faz, claro que faz, mas só ele parece acreditar nisso com a teimosia de quem se recusa a abandonar um barco furado. O tema é esse mesmo: os poucos professores que ainda se esforçam de verdade. Aqueles que continuam lutando, mesmo quando o resto do mundo já jogou a toalha e finge que não viu. É sobre eles que eu falo, porque alguém precisa falar.

Ele entra na sala com a coragem de quem encara um tribunal. Os alunos o observam como quem avalia um produto na prateleira: serve ou não serve. E ele tenta servir. Tenta ser útil, tenta ser firme, tenta ser humano. No fundo, tenta não enlouquecer. Porque ensinar, hoje, virou quase um ato de resistência emocional. Uma batalha silenciosa entre o desejo de desistir e a culpa de abandonar quem ainda pode aprender alguma coisa.

E não pense que é exagero. O professor sabe que, se não fizer o que faz, ninguém fará. Sabe que muitos ali só terão contato com alguma forma de disciplina, curiosidade ou esperança dentro daquela sala apertada, quente, barulhenta. Ele sabe disso e carrega esse peso como quem carrega sacos de cimento nas costas. E ainda sorri. Ou tenta.

Enquanto isso, a sociedade inteira adora posar de preocupada com a educação. Todo mundo tem opinião, todo mundo tem solução mágica, todo mundo sabe exatamente o que deveria ser feito. Mas, na hora de valorizar quem realmente faz, aí o silêncio vira regra. É bonito cobrar, difícil reconhecer. E mais difícil ainda admitir que, sem esses poucos teimosos, tudo já teria desmoronado.

O professor da sala 12, por exemplo, não ganha medalha, não ganha bônus, não ganha aplauso. Ganha dor de cabeça, boletos e uma sensação constante de estar remando contra a maré. Mas continua. Porque, no fundo, tem uma obsessão quase ingênua: acreditar que ensinar ainda transforma alguma coisa. Talvez transforme pouco, talvez transforme devagar, mas transforma. E isso basta para ele.

E é curioso como, mesmo cansado, ele ainda se emociona quando um aluno entende algo simples. Quando alguém pergunta mais do que o necessário. Quando vê um brilho rápido no olhar de quem, por um segundo, percebe que aprender pode ser uma forma de liberdade. Esses momentos são raros, mas são o combustível que impede o professor de virar estatística.

A ironia é que, enquanto muitos reclamam da juventude perdida, da escola que não funciona, da bagunça generalizada, ninguém percebe que ainda existem heróis anônimos segurando as pontas. Heróis que não usam capa, mas usam caneta. Que não voam, mas correm de sala em sala. Que não salvam o mundo inteiro, mas salvam um aluno por vez. E isso, convenhamos, já é mais do que muita gente faz.

No fim do dia, o professor da sala 12 volta para casa exausto, mas com a estranha sensação de que cumpriu um dever que ninguém pediu, mas que ele insiste em assumir. Talvez seja teimosia. Talvez seja vocação. Talvez seja só a velha mania humana de tentar consertar o que está quebrado. Mas é bonito. E raro. E merece ser dito.

Porque, enquanto o país se distrai com escândalos, promessas e ilusões, ainda existem professores que se levantam todos os dias para ensinar o que sabem, do jeito que podem, para quem quiser ouvir. E isso, por si só, já é um ato de coragem.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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O dia em que o mundo encolheu https://portalbarflam.com.br/dia-mundo-encolheu/ Fri, 23 Jan 2026 20:17:01 +0000 https://sabeis.com.br/?p=18145 Crônicas O dia em que o mundo encolheu (20/01/26) O problema das pessoas pensarem só em si mesmas não começou ontem, mas hoje de manhã ele resolveu me dar bom-dia com a delicadeza de um tapa. Bastou eu sair de casa. A rua parecia um desfile de gente apressada, cada um carregando seu próprio universo […]

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O dia em que o mundo encolheu

(20/01/26)

O problema das pessoas pensarem só em si mesmas não começou ontem, mas hoje de manhã ele resolveu me dar bom-dia com a delicadeza de um tapa. Bastou eu sair de casa. A rua parecia um desfile de gente apressada, cada um carregando seu próprio universo como se fosse um segredo precioso demais para dividir. Ninguém olha, ninguém escuta, ninguém cede um centímetro. É como se o mundo tivesse encolhido até caber no bolso de cada um, e o resto que se vire. E eu ali, tentando atravessar a calçada, percebendo que a indiferença virou hábito, quase um esporte nacional.

A cena mais banal vira um pequeno drama quando você presta atenção. A moça do café, por exemplo. Pediu um expresso, recebeu, virou as costas sem agradecer. Não que o barista estivesse esperando uma serenata, mas um aceno não mata ninguém. Só que, para ela, o mundo era ela. O resto era cenário. E o barista, coitado, ficou ali com aquele sorriso congelado, como quem leva um fora sem ter se declarado. A gente acha graça, mas no fundo dói um pouco ver como a gentileza virou artigo de luxo.

E não pense que eu estou aqui posando de santo. Também tenho meus dias de ego inflado, quando acho que o universo deveria abrir espaço só porque acordei de mau humor. A diferença é que eu ainda sinto culpa. Uma culpa meio torta, meio inútil, mas que pelo menos me lembra que existe gente além de mim. Tem gente que nem isso. Gente que vive como se fosse protagonista de uma peça onde todos os outros são figurantes mal pagos.

Outro dia vi um sujeito furar a fila do mercado com a naturalidade de quem respira. Quando alguém reclamou, ele respondeu com aquele clássico “é rapidinho”. Como se a pressa dele fosse mais nobre que a dos outros. E o pior é que ninguém insistiu. Todo mundo engoliu seco, talvez porque já tenha se acostumado. A gente normalizou o absurdo. Virou rotina aceitar que cada um cuida do seu e dane-se o resto.

Mas aí vem o paradoxo: todo mundo reclama da falta de empatia, mas ninguém quer ser o primeiro a praticá-la. É como se a solidariedade tivesse virado um produto caro, vendido em prestações. A gente gosta da ideia, mas não quer pagar o preço. E olha que o preço é baixo: ouvir, ceder, dividir, reconhecer o outro. Coisas simples, quase bobas, mas que parecem pesar toneladas quando o ego está no comando.

O mais curioso é que, apesar de toda essa pose de independência, ninguém aguenta viver sozinho de verdade. A gente precisa do outro, nem que seja para ter alguém a quem culpar. Só que admitir isso dá trabalho. Então seguimos fingindo autossuficiência, como adolescentes que batem à porta do quarto para provar que não precisam de ninguém, mas esperam o jantar pronto na mesa.

No fundo, essa mania de pensar só em si mesmo é uma mistura de medo e vaidade. Medo de ser passado para trás, vaidade de achar que merece mais que o resto. E enquanto cada um protege seu pequeno território emocional, o mundo vai ficando mais apertado, mais áspero, mais silencioso. Não por falta de gente, mas por falta de encontro.

Talvez a solução não seja grandiosa. Talvez comece com um obrigado, um “pode passar”, um olhar que reconhece o outro como alguém que também sente, também cansa, também tenta. Pequenos gestos que, somados, podem devolver um pouco de espaço ao mundo. Porque, do jeito que está, ele anda pequeno demais para tanto ego.

Roberto Luiz Cantareira (PGIA)

Redação Sabeis – Crônicas

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